26/12/2010

a pensar no que se pode dizer

a pensar no que se pode dizer
no que se há-de dizer
a ficar suspenso na distâcia
a saber um do outro em silêncio
a precisar em silêncio

19/11/2010

esta noite vou dormir assim

esta noite não tiro a roupa
vou dormir assim
o cheiro a fumo no cabelo
eu com saudades de vê-lo
e eis que aparece por fim
esta noite não vou esquecê-lo
esta noite vou dormir assim
o cheiro a fumo no cabelo
esta noite lembrou-se de mim

16/07/2010

para logo se perderem na infinita escuridão

ela pousa a mão no papel branco
já não consegue escrever
há muito que esqueceu como se formam parágrafos, frases ou sequer palavras
esqueceu depois de o conhecer
esqueceu tudo
depois de o conhecer
já não consegue gritar nem sequer perder a calma
está amansada ela
o pensamento já não escala as montanhas mais altas
nem atravessa oceanos em fúria
navega agora em águas profundas
raios esporádicos iluminam o seu perímetro mais curto
para logo se perderem na infinita escuridão

13/07/2010

finalmente

as notas desprendiam-se dos instrumentos
queriam a liberdade aquelas notas
já não queriam pertencer ao corpo daqueles instrumentos
nem sequer aos dedos nem às cabeças daqueles músicos
elas corriam
saltavam
por vezes tropeçavam descoordenadas na sua fuga descontrolada
queriam a liberdade aquelas notas
já não pertenciam a ninguém
e riam
riam muito
eram livres
finalmente

27/06/2010

dia importante

se hoje é um dia importante
que dizer de todos os outros
os dias banais são os mais importantes de todos
são eles que realmente habitam a nossa vida

20/06/2010

casaco


nalgum lugar
pendurado nas costas de uma cadeira
um casaco
que jamais voltará a ser vestido

17/06/2010

morreria no arrependimento

digo-te
se fosse hoje o último dia
não deixaria que o mundo acabasse sem te dizer
foste o grande amor da minha vida
tu encolherias os ombros
como se o soubesses desde sempre
não fosse o mundo acabar naquele preciso instante
eu morreria no arrependimento.

27/05/2010

termina a espera

termina a espera
a partir de hoje não espero mais pelo futuro
vou só amar
buscar o significado
que se foda tudo e mais a puta da crise
arrastam-nos indecentes
como se fôssemos peso morto que é preciso aliviar a todo o custo
toca a cortar

vamos cortar que é a crise
essa puta seminua que se vende todos os dias na esquina da assembleia da república
vá vamos
toca a cortar
todos a cortar
cortem as mãos e os braços que trabalham
cortem os seios que alimentam
cortem as cabeças
principalmente as cabeças
que o povo quer-se burro e sem cornos para não marrar
vamos embora acéfalos
toca a marchar
toca a cortar tudo
é tudo para cortar
tudo
(menos o pensamento
que esse
ainda ninguém sabe calar
palavras danadas que se falam à noite
quando as mães soluçam baixinho
suas canções de embalar)

21/05/2010

foste tão pouco

falaste muito
disseste tudo aquilo que nós já sabíamos
tu não podes ser tu
tu és outro
o que escreves é tudo aquilo que não se escreve
os outros olharam-te e viram-se reflectidos nas tuas palavras
os outros olharam-te e viram-se reflectidos em ti
e tu tão pouco
foste tão pouco

20/05/2010

meu amado

foi um frio estranho que veio fora de tempo
o nosso amor
atonal e descrente
não teve a força da maré nem de cem cavalos a correr em campo aberto
foi uma noite de Agosto em Lisboa
o nosso amor
ventoso e desabrigado
sem mão
sem boca
sem voz
sem poder dizer adeus
adiado
impedido de respirar
foi sufocando lentamente
nós impávidos serenos observadores sádicos
a vê-lo perder a cor
a senti-lo desmaiar
a tomar o pulso fraco
sem deixá-lo morrer
comatoso hibernado
adiado adiado odiado
para sempre adiado
para sempre
meu amado

07/05/2010

em contagem decrescente

dizem que és só silêncio
que és feita de pausas
que tens um problema
que não te adaptas
que não percebes
dizem que muito provavelmente fixarás o chão durante todo o tempo que aqui estiveres
para te contar uma história
para te entreter
fazer passar o tempo
o meu tempo
dizem que não podes fazer música
que nunca serás capaz de tocar
estas e outras barbaridades
como querendo se desculpar pelo incómodo que tu és
não poderiam estar mais enganados
o teu discurso é interior
vamos gastar o nosso tempo juntas a construir sem pressas um som que é só teu
fazer corridas que irás ganhar sempre
estou em contagem decrescente
para te ver de novo sorrir

03/05/2010

vai dar trabalho estarmos vivos

vai dar trabalho estarmos vivos
a espaços tentamos rescrever o nosso guião e ensaiamos
nunca chegamos a estrear o palco
investigamos uma nova gramática interior
acreditamos na possibilidade e analisamos
nunca chegamos à descoberta
maltratamos a mãe que nos ama que nos embala que nos alimenta que nos deixa viver
na sua infinita paciência ela vai perdoando os nossos erros que se repetem em cadeias inquebráveis
uma espécie de sal seco sobrará no final
poeira inerte da qual faremos parte
nós tão ágeis e criativos
reduzidos a nada
quando a mãe morrer
cruzaremos os nossos olhos incrédulos de tanta verdade e tanto rigor
e ninguém jamais nos chorará
só um fio de universo como testemunha da nossa existência


Para a Elaine Guedes

01/05/2010

daqui quase vejo o mar

daqui quase vejo o mar
imagino o sal a picar-me a pele
em vão semi-cerro os olhos atacados de tanta luz
tu ris-te porque não acreditas numa dor assim tão grande
eu com falta de ar
falta de ar do mar
quase a morrer de falta de mar
ris-te da minha exasperação
por nunca mais lá chegar
ao mar
aos pés do mar
às pernas do mar
ao tronco do mar
aos braços do mar
à cabeça do mar
daqui a nada estou no mar
digo-o porque dependo desse encontro para continuar a viver
ris-te porque não sabes que é mesmo assim
mas olha
é mesmo assim

30/04/2010

a festa

chove intensamente
saio do carro e corro para a entrada
sou emigrante numa família que abandonei em busca de paragens mais amenas
caras e corpos cruzam-me em direcções mal desenhadas
dão lugar a outras tantas que acenam em cumprimentos tímidos
escuto sons já conhecidos
são os mesmos de antes
e de antes
e de antes
foram sempre os mesmos
uma familiaridade estranha vai ocupando o espaço já percorrido
as escadas que se sobem e descem numa mecânica altiva de quem já conhece este percurso de cor
enfrento angústias antigas que de tão ultrapassadas perderam significado
rio do patético
do decrépito
todos fingem não notar o cheiro a mofo da festa

26/04/2010

há pessoas que vivem em modo infinito

há pessoas que vivem em modo infinito
não começam nem acabam na nossa vida
há pessoas que são satélites de longas elipses
movimentando-se em torno de tudo o que é nosso
e nós tão absortos em rotação própria
pertencemos-lhes por isso.

13/04/2010

beijo

há um beijo esquecido
entre a minha boca e a tua
um beijo roubado
tão certo e tão errado
desejá-lo
neste dia

06/04/2010

a gente cansa de esperar

escrevo a mensagem
que não vou enviar
releio a mensagem
decido apagar
no ecrã
nada a declarar
passam as horas
passam os dias
eu decidida a falar
outra mensagem
que nunca irás ler
nunca irás receber
cansei amor
cansei
a gente cansa
de esperar

04/04/2010

estás morto e ainda não sabes

e agora
neste preciso momento
como podes ter a certeza de estares vivo?
respiras?
pensas?
sentes?
isso não é nada
isso não quer dizer absolutamente nada
sabes que mais?
estás morto
estás morto e ainda não sabes

03/04/2010

sverige I

viajamos ao longo da costa sul
cantamos canções antigas e rimos muito
ao nosso lado o mar imóvel e azul
somos felizes numa viagem improvisada
tarte de maçã em casa do escultor louco e fascinante
prometemos ficar juntas para sempre
ficaremos juntas para sempre
tack
obrigada

01/04/2010

outra vez

fazemos acordos de paz que violamos repetidamente
invadimos as nossas fronteiras
conquistamos territórios que não nos pertencem
encontramo-nos a desoras
em campos de batalha imaginários
todos os dias lutamos até à morte
trespassamos os nossos corpos
tombamos de tão envenenados que estamos
cansados do metal pesado que nos corre nas veias
amanhã outra vez?
amanhã
outra vez

31/03/2010

a tua voz

faço as malas
enquanto escuto a tua voz
preparo-me para fugir
enquanto escuto a tua voz
já não quero partir
culpa da tua voz

30/03/2010


atrás de milhões de ligações
de fibras digitais e cabos ópticos
estão os dedos que pertencem às mãos que pertencem aos braços que pertencem ao corpo que pertence à cabeça que amo
dizes
já não sei viver sem ti
um dia depois do outro, depois do outro e do outro
é tudo o que temos
num cúmulo virtual
perdidos em palavras
estamos cada vez mais ténues
cada vez mais brandos
falamos de pele e de tudo o que é real
como se alguma vez pudéssemos
aqui
sei do vento no meu cabelo
e do teu sorriso

29/03/2010

a espera

eu entendo a espera
ela entende mas sofre
eu sofro por ela e pela espera
aqui ninguém se move
metais frios e mãos inertes
tocam o corpo mutilado
o sangue frágil corre lento
vezes mil veias multiplicado
esperamos como antes
as espessas demoras
eu entendo a espera
eu entendo
ela sofre

28/03/2010

no meu próprio passo

agora que desabitaste o campo dos meus dias
as horas vão passando em minutos de areia e vazios
se ao menos dissesses o meu nome
esse caminho por marcar
conduzir-me-ia até ti
no meu próprio passo

26/03/2010

um poema no metro

olha
fiz aquilo
eu disse que o faria
no metro
levantei-me
oiçam isto
oiçam bem isto
em plena hora de ponta
um poema
da tua autoria

25/03/2010

o nosso amor ou as idiossincrasias de um tango finlandês

desconcertado
desconjugado
desembaraçado
desertado
descontinuado
descontrolado
desajeitado
desabrigado
desculpabilizado
desdobrado
desditado
desafinado
despudorado
desapropriado
disparatado
desfasado
desencaminhado
desedificado
desaproveitado
desembestado
desacreditado
desadequado
deslocado
desadornado
desafectado
descafeínado
desabonado
desabitado
desagradado
desajustado
desalmado
descentralizado
desencaixado
desenjoado
desenredado
desparafusado
desarrimado
desarvorado
descabelado
descalcificado
descaracterizado
descarreirado
descarnado
descasado
descompensado
descompassado
descomplexado
desenraizado
destabilizado
desconchavado
desconversado
descoordenado
desencontrado
desenfadado
desinstalado
desnutrido
desnivelado
despistado
despenalizado
dessincronizado
desterrado
desventurado
já tinha dito desesperado?

24/03/2010

segue a linha

segue a linha
segue o voo dos pássaros em bando
segue esse traço curvo desenhado de instinto e inevitabilidade
segue o perpétuo movimento
adivinha o seu fim adiado
bem e mal amado
agora sim os teus olhos brilham
incrédulos de verdade

(para Benjamin Zander)

23/03/2010

não acredites

quando digo
vou viajar
vou fugir daqui
não aguento mais este país que me sufoca
não aguento mais esta cultura branda de mediocridade complacente
não aguento mais não reagir
o que quero dizer é
fazes-me falta
penso demasiado em ti
não aguento mais a intangibilidade do nosso universo
não aguento mais o nosso anacronismo
não aguento mais não agir
quando digo
não acredites em nada do que digo
não acredites

22/03/2010

remorso invisível

um remorso invisível consome os meus dias.
a ausência de tempo concreto alimenta a minha imaginação.
apaguei todas as marcas da tua existência.
agora vives na minha memória fractálica
e amplio cada pormenor teu,
representação do todo que nunca foi nosso.
assim mantenho-te amarrado,
amordaçado dentro de mim,
escondido debaixo da minha pele.
tão bem guardado que finjo não querer saber de ti.

enquanto sacodes o espanto

enquanto sacodes o espanto,
desfazes em poeira o pensamento,
torna-se absurdo todo o canto,
fechas-te,
singular,
em redoma de silêncio.

21/03/2010

girassóis de Van Gogh

faz muito sol,
as crianças brincam,
girassóis de Van Gogh,
hoje
no pátio de Seurat.

20/03/2010

eu ligo. tu não ligas nada

Eu ligo
Eu ligo para ti
Eu ligo para ti porque te amo
Eu ligo para ti porque te amo e porque hoje é o teu dia
Tu não ligas
Tu não ligas nada
Tu não ligas nada porque nem sequer te lembras
Tu não ligas nada porque nem sequer te lembras mas sei que me amas
Eu sei
Eu sei do nosso amor
Pai

19/03/2010

aceita a palavra. aceita a troca

aceita a palavra
aceita a troca
aceita
por muito que te custe
aceita a troca
porque o tempo está ameno
e já não chove como antes
aceita a palavra
que é tudo o que tenho para oferecer
aceita a palavra
ainda que te digam que é pouco
para nós é tudo
eu sei

aceita a troca
aceita a palavra
aceita
mesmo que não faça sentido
aceita a palavra
porque o momento mudou
e já não desejas como antes
aceita a troca
ainda que te digam que não
é uma troca
eu sei

tu sabes
aqui
do outro lado do mundo
do outro lado do universo
uma palavra é uma troca

O pátio de Seurat

a observar o pátio
ou será um Seurat?

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