22/01/2012

e eis que do nada me tiraste o chão

e eis que do nada me tiraste o chão
a minha voz enrouquecida do teu nome calou-se
tu fechado em redoma de silêncio
com medo de tudo
eu cavada do mais profundo engano
com medo de ti
de nada nos serviu termos avistado o topo do abismo
se assustados regressámos à mais profunda escuridão
de olhos fixados nas tuas mãos
fico a ver-te partir
até que desapareças numa esquina qualquer do meu pensamento
nunca mais te quero ver nem ouvir
tão pouco uma só palavra escrita por ti


18/01/2012

o silêncio do deserto

a brisa que corre entre nós é fria
Até no calor do teu deserto
Tu que carregas a alma vazia
queres sentir-me por perto
Eu muda e calada de espanto
Solto gritos silenciosos de agonia
Se até me calaste o canto
Tu que sabes sempre o mais certo
Cobriste-me de vergonha com o teu manto
Secaste a minha voz
No silencio do teu deserto

17/01/2012

ver aquilo que as coisas são

as coisas são nada
apenas o gesto importa dizes
a palavra escutada num momento infinito de verdade
a verdade curvada
perante o constante devir que habita o teu pensamento
paraliso de medo
sabendo-me nesse vórtice onde caí
e onde a palavra é infinitamente bela
vagueio sobre territórios por mapear
o chão a desfazer-se a cada passo meu
presa do outro lado do mundo
nunca chegarei ao teu lugar
as coisas que digo por aí
na noite desassossegada
sem conseguir ver aquilo que és
aquilo que as coisas são
eu que queria tanto
ver como as coisas são

13/01/2012

hoje eu não quero ser forte

hoje eu não quero ser forte
quero ser fraca
quero deixar que o teu mar
inunde meus pulmões de sereia
o teu sangue correr nas minhas veias
porque hoje é noite de lua cheia
hoje eu quero-te amar
hoje não quero ser ametista
quero ser pedra suja da calçada
pra toda a gente pisar
hoje eu não quero ser forte
vou seguindo a tua pista
nem Atena nem coruja
nego toda a sabedoria
rasgar meu peito até ser dia
hoje eu quero-te amar

11/01/2012

toca e foge

toca e foge
toca e foge
toca-me
agora foge!

10/01/2012

corujismo

as noites de Inverno são curtas para nós
gastamos as noites até ser dia
cantamos e compomos e amamos nós
corujas de Atena sabedoria
as noites são de mil cores e mil sons para nós
espalhamos nessas noites fantasia
dançamos e partilhamos e comentamos nós
sabendo do mundo sua alegria
as noites de Inverno são longas para nós
choramos perdas de amores de família
e os amantes que nessas noites se sentem sós
escutando nosso piar se alumiam
as noites são de mil homens e mulheres sós
que espalhados por esse mundo agoniam
é para eles que cantamos os nossos dós
choramos e amamos
dançamos e partilhamos
nosso pio de coruja é melodia

09/01/2012

bem querer

eu dou-te a minha mão
mas tu não a queres não
eu dou-te uma palavra
tu deixa-la cair no chão
calo-me então
porque desvias o olhar
relembro a tua pele
ela tem cheiro de mar
vais ligando vais falando
como quem não se interessa
como quem não sente falta
tu que estás sempre em alta
não precisas de ninguém
não precisas nem de quem
te quer bem
te quer bem

os dias talvez sejam iguais

Os dias talvez sejam iguais para ti
talvez a tua memória rejeite repetições
mas nós existimos tão leves
e os nossos segundos tão breves
combinam entre si encontros eternos
criam sozinhos um espaço só seu
o nosso sangue encontra o seu caminho
a nossa vontade não é mais que um relógio
os nossos músculos movem-se sozinhos
quão sozinhos estão os corações
lentamente os dias iguais
os dias das repetições
movimento perpétuo no peito
lentamente iguais para ti

03/01/2012

Há um poeta

a gente habita a tua casa
gente bela
quem é ela
que agora te chama?
a gente habita o teu corpo
gente fria
qual o dia
em que essa gente te ama?
a gente bebe o teu vinho
sem carinho
sem amor
e tu que morres de pavor
de bebê-lo sozinho
lanças rimas fáceis
rimas vãs
constróis um clube de fãs
que soltam ais em teu louvor
mas lá no fundo há um poeta
muito mais belo
muito mais santo
foi para ele meu canto
foi por ele meu encanto

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