termina a espera
a partir de hoje não espero mais pelo futuro
vou só amar
buscar o significado
que se foda tudo e mais a puta da crise
arrastam-nos indecentes
como se fôssemos peso morto que é preciso aliviar a todo o custo
toca a cortar
vá
vamos cortar que é a crise
essa puta seminua que se vende todos os dias na esquina da assembleia da república
vá vamos
toca a cortar
todos a cortar
cortem as mãos e os braços que trabalham
cortem os seios que alimentam
cortem as cabeças
principalmente as cabeças
que o povo quer-se burro e sem cornos para não marrar
vamos embora acéfalos
toca a marchar
toca a cortar tudo
é tudo para cortar
tudo
(menos o pensamento
que esse
ainda ninguém sabe calar
palavras danadas que se falam à noite
quando as mães soluçam baixinho
suas canções de embalar)
27/05/2010
21/05/2010
foste tão pouco
falaste muito
disseste tudo aquilo que nós já sabíamos
tu não podes ser tu
tu és outro
o que escreves é tudo aquilo que não se escreve
os outros olharam-te e viram-se reflectidos nas tuas palavras
os outros olharam-te e viram-se reflectidos em ti
e tu tão pouco
foste tão pouco
disseste tudo aquilo que nós já sabíamos
tu não podes ser tu
tu és outro
o que escreves é tudo aquilo que não se escreve
os outros olharam-te e viram-se reflectidos nas tuas palavras
os outros olharam-te e viram-se reflectidos em ti
e tu tão pouco
foste tão pouco
20/05/2010
meu amado
foi um frio estranho que veio fora de tempo
o nosso amor
atonal e descrente
não teve a força da maré nem de cem cavalos a correr em campo aberto
foi uma noite de Agosto em Lisboa
o nosso amor
ventoso e desabrigado
sem mão
sem boca
sem voz
sem poder dizer adeus
adiado
impedido de respirar
foi sufocando lentamente
nós impávidos serenos observadores sádicos
a vê-lo perder a cor
a senti-lo desmaiar
a tomar o pulso fraco
sem deixá-lo morrer
comatoso hibernado
adiado adiado odiado
para sempre adiado
para sempre
meu amado
o nosso amor
atonal e descrente
não teve a força da maré nem de cem cavalos a correr em campo aberto
foi uma noite de Agosto em Lisboa
o nosso amor
ventoso e desabrigado
sem mão
sem boca
sem voz
sem poder dizer adeus
adiado
impedido de respirar
foi sufocando lentamente
nós impávidos serenos observadores sádicos
a vê-lo perder a cor
a senti-lo desmaiar
a tomar o pulso fraco
sem deixá-lo morrer
comatoso hibernado
adiado adiado odiado
para sempre adiado
para sempre
meu amado
07/05/2010
em contagem decrescente
dizem que és só silêncio
que és feita de pausas
que tens um problema
que não te adaptas
que não percebes
dizem que muito provavelmente fixarás o chão durante todo o tempo que aqui estiveres
para te contar uma história
para te entreter
fazer passar o tempo
o meu tempo
dizem que não podes fazer música
que nunca serás capaz de tocar
estas e outras barbaridades
como querendo se desculpar pelo incómodo que tu és
não poderiam estar mais enganados
o teu discurso é interior
vamos gastar o nosso tempo juntas a construir sem pressas um som que é só teu
fazer corridas que irás ganhar sempre
estou em contagem decrescente
para te ver de novo sorrir
que és feita de pausas
que tens um problema
que não te adaptas
que não percebes
dizem que muito provavelmente fixarás o chão durante todo o tempo que aqui estiveres
para te contar uma história
para te entreter
fazer passar o tempo
o meu tempo
dizem que não podes fazer música
que nunca serás capaz de tocar
estas e outras barbaridades
como querendo se desculpar pelo incómodo que tu és
não poderiam estar mais enganados
o teu discurso é interior
vamos gastar o nosso tempo juntas a construir sem pressas um som que é só teu
fazer corridas que irás ganhar sempre
estou em contagem decrescente
para te ver de novo sorrir
03/05/2010
vai dar trabalho estarmos vivos
vai dar trabalho estarmos vivos
a espaços tentamos rescrever o nosso guião e ensaiamos
nunca chegamos a estrear o palco
investigamos uma nova gramática interior
acreditamos na possibilidade e analisamos
nunca chegamos à descoberta
maltratamos a mãe que nos ama que nos embala que nos alimenta que nos deixa viver
na sua infinita paciência ela vai perdoando os nossos erros que se repetem em cadeias inquebráveis
uma espécie de sal seco sobrará no final
poeira inerte da qual faremos parte
nós tão ágeis e criativos
reduzidos a nada
quando a mãe morrer
cruzaremos os nossos olhos incrédulos de tanta verdade e tanto rigor
e ninguém jamais nos chorará
só um fio de universo como testemunha da nossa existência
Para a Elaine Guedes
a espaços tentamos rescrever o nosso guião e ensaiamos
nunca chegamos a estrear o palco
investigamos uma nova gramática interior
acreditamos na possibilidade e analisamos
nunca chegamos à descoberta
maltratamos a mãe que nos ama que nos embala que nos alimenta que nos deixa viver
na sua infinita paciência ela vai perdoando os nossos erros que se repetem em cadeias inquebráveis
uma espécie de sal seco sobrará no final
poeira inerte da qual faremos parte
nós tão ágeis e criativos
reduzidos a nada
quando a mãe morrer
cruzaremos os nossos olhos incrédulos de tanta verdade e tanto rigor
e ninguém jamais nos chorará
só um fio de universo como testemunha da nossa existência
Para a Elaine Guedes
01/05/2010
daqui quase vejo o mar
daqui quase vejo o mar
imagino o sal a picar-me a pele
em vão semi-cerro os olhos atacados de tanta luz
tu ris-te porque não acreditas numa dor assim tão grande
eu com falta de ar
falta de ar do mar
quase a morrer de falta de mar
ris-te da minha exasperação
por nunca mais lá chegar
ao mar
aos pés do mar
às pernas do mar
ao tronco do mar
aos braços do mar
à cabeça do mar
daqui a nada estou no mar
digo-o porque dependo desse encontro para continuar a viver
ris-te porque não sabes que é mesmo assim
mas olha
é mesmo assim
imagino o sal a picar-me a pele
em vão semi-cerro os olhos atacados de tanta luz
tu ris-te porque não acreditas numa dor assim tão grande
eu com falta de ar
falta de ar do mar
quase a morrer de falta de mar
ris-te da minha exasperação
por nunca mais lá chegar
ao mar
aos pés do mar
às pernas do mar
ao tronco do mar
aos braços do mar
à cabeça do mar
daqui a nada estou no mar
digo-o porque dependo desse encontro para continuar a viver
ris-te porque não sabes que é mesmo assim
mas olha
é mesmo assim
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