10/10/2013

Há palavras

Há palavras que de tão inesperadas,
nos bloqueiam o pensamento como um vírus,
paralisam-nos o corpo como um veneno.
Não são as boas essas palavras.
São duras como a água do oceano,
impenetráveis como o ar em movimento.
Tal como os elementos se transformam no oposto de si,
também nós endurecemos num oposto de nós.
E as palavras que de tão duras se transformam em dor,
são agora outra coisa que não nos deixa ser apenas água e ar,
são espadas inertes que nos trespassam inclementes.
Abrandemos então a roda do mundo,
antes que esta nos triture os ossos e nos quebre a alma.

09/03/2013

sem demora

quero esse amor
de olhar nos olhos e derreter
de tudo ver
mão na mão
do coração
quero esse amor limpo e forte
de ágeis músculos a dançar
de caminhar
de respirar
do meu ventre ver nascer
amor de infinito gesto
quero voltar depressa a um novo dia
do olhar sério e profundo
de quem já nasceu antigo
do braço,
do peito,
alegria
quero-te agora
e para sempre
a tua voz a emudecer
tímida no meu ouvido
um choro bandido
quero tudo de ti
sem demora.

4:00

disparamos palavras.
estas seguem trajectórias erráticas
despenhando-se em silêncios mudos e magoados
assim, pensamentos límpidos e claros transformam-se
o céu abate-se denso e ruidoso lá fora
solto um grito
impossível dormir
cava-se um vazio tão fundo que me falta o ar
não posso fazer-me ouvir
há um par de horas que deixei de existir
não apareces para me resgatar desta profundeza fria
eu quase a morrer
de te não ter abraçado a mim

09/01/2013

outra vez

outra vez
o mesmo vazio
a mesma falta
a mesma falha
um tempo interminável
que não se desata
amarra-me à curva dos dias
como que mata
arranco-te da minha cabeça à força
tu a não quereres sair
a quereres ficar sempre
só mais um bocadinho
dizes
dentro de mim
fecho os olhos porque quero tanto
e então
subitamente o silêncio
interrompe-se o movimento
voltamos ao antes
campo aberto de incertezas e causalidades
não tenho culpa digo
bem sei
dizes
é um pequeno fim
a terra treme-me debaixo dos pés
outra vez
a mesma voz
que se espalha
sobressalta
um tempo interminável
momentaneamente acelerado por um raio de luz



13/12/2012

não aguentas a distância

não aguentas a distância
consomes o meu desejo como se fosse um shot
que se arrasta da garganta
incendiando todo o percurso até ao peito
agrava-se com o passar dos segundos, das horas, dos dias que correm injustos
numa velocidade própria de quem vive acima das cabeças dos mortais
qual titã lutando contra o mundo
baixas a tua guarda
calor de paz que te embala
resgata-te do frio profundo
agora lutas contra a distância
já nada faz sentido longe daqui
já nada faz sentido longe de ti

24/05/2012

feia bela

porque não era bela ele amava-a como não era possível amar
porque era frágil ele quebrava-a como sabia
que era como se a atirasse para um abismo
era forte e podia
ela chamava-o
voz semi-tonada
feia e bela
como ela
nunca lhe pedia nada porque não precisava
corpo e pensamento
todos dela
falava como se ela sem ele não fosse nada
como não vivesse nem respirasse
fingia que não escutava as golfadas fortes
descendo a garganta
enchendo-lhe os pulmões
um ar que não era ele porque não era dele
sabia-o
era um desejo estranho de costas voltadas
desejo de desejar
de sofrer
não a ver
ela
feia bela

20/03/2012

subitamente leve

subitamente leve
pressinto a mudança
sem peso
sem mágoa
sem sequer verter uma lágrima
pressinto-te longe
sem saber como te chegar
digo palavras sem sentido para ti
crio imagens às quais és indiferente
não entendes porque estás tão longe
quanto a galáxia mais longínqua
quanto a partícula mais infinita
eu actriz em filme mudo
não me posso fazer ouvir
só me resta sorrir
só me resta sorrir

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