13/12/2012

não aguentas a distância

não aguentas a distância
consomes o meu desejo como se fosse um shot
que se arrasta da garganta
incendiando todo o percurso até ao peito
agrava-se com o passar dos segundos, das horas, dos dias que correm injustos
numa velocidade própria de quem vive acima das cabeças dos mortais
qual titã lutando contra o mundo
baixas a tua guarda
calor de paz que te embala
resgata-te do frio profundo
agora lutas contra a distância
já nada faz sentido longe daqui
já nada faz sentido longe de ti

24/05/2012

feia bela

porque não era bela ele amava-a como não era possível amar
porque era frágil ele quebrava-a como sabia
que era como se a atirasse para um abismo
era forte e podia
ela chamava-o
voz semi-tonada
feia e bela
como ela
nunca lhe pedia nada porque não precisava
corpo e pensamento
todos dela
falava como se ela sem ele não fosse nada
como não vivesse nem respirasse
fingia que não escutava as golfadas fortes
descendo a garganta
enchendo-lhe os pulmões
um ar que não era ele porque não era dele
sabia-o
era um desejo estranho de costas voltadas
desejo de desejar
de sofrer
não a ver
ela
feia bela

20/03/2012

subitamente leve

subitamente leve
pressinto a mudança
sem peso
sem mágoa
sem sequer verter uma lágrima
pressinto-te longe
sem saber como te chegar
digo palavras sem sentido para ti
crio imagens às quais és indiferente
não entendes porque estás tão longe
quanto a galáxia mais longínqua
quanto a partícula mais infinita
eu actriz em filme mudo
não me posso fazer ouvir
só me resta sorrir
só me resta sorrir

18/03/2012

onde andas tu

onde andas tu
por entre intermináveis domingos
escondido de todos os perigos
onde andas tu
minha metade da metade de mim
tu que me mostraste um fim
doce impressionista razão
tu que me deste a mão
e agora te escondes assim
onde andas tu
perdido de amores
sofrendo tuas dores
esquecido dos sons
confundido nos tons
onde andas tu querubim
onde andas tu
porque foges de mim

08/03/2012

para lembrar

se daqui a muito tempo
a minha memória dessa noite
for mais transparente
que um leve tule de pensamento
cerrarei os olhos para lembrar
da curva do teu pescoço
do desenho da pele sobre o osso
do fresco a invadir o meu corpo
da beleza do momento
da loucura da dança
à verdade do beijo
que demorou tanto a aparecer

13/02/2012

vamos até Moscovo

vamos até Moscovo
vamos comprar sapatos
vamos ver o mundo
vamo-nos amar
vamos comer moqueca
vamos em mil passos
vamos ao fundo
vamo-nos farejar
vamos perder a cabeça
vamos ao México
vamos no fim do dia
vamos dançar
vamos dizer corta essa
nem sarau
nem promessa
tudo muito
e sem pressa
vamo-nos desejar

06/02/2012

do muito amor entre nós

sem jeito para falar o que se pensa
fala-se o que não se pensa
e pensa-se muito nisso tudo que é bom e que se nega
sem saber como
sem saber onde
abre-se dentro do peito
um abismo cavado e fundo
a pele toda arrepiada
de repente o inesperado
culpa da palavra
sempre que a sós
tendermos para o infinito
do muito amor entre nós

05/02/2012

o meu menino foi embora

o meu menino foi embora
seguiu pintando
seguiu escrevendo
mundo afora
mundo adentro
o meu menino foi embora
ele que melhorava tudo
seguiu sonhando
seguiu vivendo
mundo afora
mundo adentro
o meu menino foi embora
o meu mais que tudo
seguiu cantando
seguiu sem medo
e consigo levou o vento
com que embalava a minha hora
seguiu viagem
com coragem
mundo afora
mundo adentro
o meu menino foi embora
encontrou o fim do mundo
seguiu andando
seguiu amando
voltará é certo
a ver se não demora.

02/02/2012

coisa diferente

coisa diferente
desigual de toda a gente
tão sorriso, tão contente
o teu sangue sei de cor
danço a tua dança
no teu passo firme e lento
embriago-me do tempo
que o teu corpo me contém
e a altas horas
vai a noite sem demora
fico só mais uma valsa
cai a alça com desdém
coisa diferente
não é louca como a gente
vive a vida a preceito
ama tudo o que ela tem


22/01/2012

e eis que do nada me tiraste o chão

e eis que do nada me tiraste o chão
a minha voz enrouquecida do teu nome calou-se
tu fechado em redoma de silêncio
com medo de tudo
eu cavada do mais profundo engano
com medo de ti
de nada nos serviu termos avistado o topo do abismo
se assustados regressámos à mais profunda escuridão
de olhos fixados nas tuas mãos
fico a ver-te partir
até que desapareças numa esquina qualquer do meu pensamento
nunca mais te quero ver nem ouvir
tão pouco uma só palavra escrita por ti


18/01/2012

o silêncio do deserto

a brisa que corre entre nós é fria
Até no calor do teu deserto
Tu que carregas a alma vazia
queres sentir-me por perto
Eu muda e calada de espanto
Solto gritos silenciosos de agonia
Se até me calaste o canto
Tu que sabes sempre o mais certo
Cobriste-me de vergonha com o teu manto
Secaste a minha voz
No silencio do teu deserto

17/01/2012

ver aquilo que as coisas são

as coisas são nada
apenas o gesto importa dizes
a palavra escutada num momento infinito de verdade
a verdade curvada
perante o constante devir que habita o teu pensamento
paraliso de medo
sabendo-me nesse vórtice onde caí
e onde a palavra é infinitamente bela
vagueio sobre territórios por mapear
o chão a desfazer-se a cada passo meu
presa do outro lado do mundo
nunca chegarei ao teu lugar
as coisas que digo por aí
na noite desassossegada
sem conseguir ver aquilo que és
aquilo que as coisas são
eu que queria tanto
ver como as coisas são

13/01/2012

hoje eu não quero ser forte

hoje eu não quero ser forte
quero ser fraca
quero deixar que o teu mar
inunde meus pulmões de sereia
o teu sangue correr nas minhas veias
porque hoje é noite de lua cheia
hoje eu quero-te amar
hoje não quero ser ametista
quero ser pedra suja da calçada
pra toda a gente pisar
hoje eu não quero ser forte
vou seguindo a tua pista
nem Atena nem coruja
nego toda a sabedoria
rasgar meu peito até ser dia
hoje eu quero-te amar

11/01/2012

toca e foge

toca e foge
toca e foge
toca-me
agora foge!

10/01/2012

corujismo

as noites de Inverno são curtas para nós
gastamos as noites até ser dia
cantamos e compomos e amamos nós
corujas de Atena sabedoria
as noites são de mil cores e mil sons para nós
espalhamos nessas noites fantasia
dançamos e partilhamos e comentamos nós
sabendo do mundo sua alegria
as noites de Inverno são longas para nós
choramos perdas de amores de família
e os amantes que nessas noites se sentem sós
escutando nosso piar se alumiam
as noites são de mil homens e mulheres sós
que espalhados por esse mundo agoniam
é para eles que cantamos os nossos dós
choramos e amamos
dançamos e partilhamos
nosso pio de coruja é melodia

09/01/2012

bem querer

eu dou-te a minha mão
mas tu não a queres não
eu dou-te uma palavra
tu deixa-la cair no chão
calo-me então
porque desvias o olhar
relembro a tua pele
ela tem cheiro de mar
vais ligando vais falando
como quem não se interessa
como quem não sente falta
tu que estás sempre em alta
não precisas de ninguém
não precisas nem de quem
te quer bem
te quer bem

os dias talvez sejam iguais

Os dias talvez sejam iguais para ti
talvez a tua memória rejeite repetições
mas nós existimos tão leves
e os nossos segundos tão breves
combinam entre si encontros eternos
criam sozinhos um espaço só seu
o nosso sangue encontra o seu caminho
a nossa vontade não é mais que um relógio
os nossos músculos movem-se sozinhos
quão sozinhos estão os corações
lentamente os dias iguais
os dias das repetições
movimento perpétuo no peito
lentamente iguais para ti

03/01/2012

Há um poeta

a gente habita a tua casa
gente bela
quem é ela
que agora te chama?
a gente habita o teu corpo
gente fria
qual o dia
em que essa gente te ama?
a gente bebe o teu vinho
sem carinho
sem amor
e tu que morres de pavor
de bebê-lo sozinho
lanças rimas fáceis
rimas vãs
constróis um clube de fãs
que soltam ais em teu louvor
mas lá no fundo há um poeta
muito mais belo
muito mais santo
foi para ele meu canto
foi por ele meu encanto

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